terça-feira, 29 de janeiro de 2013

QUEIMADURAS - Um problema real


Estamos todos enlutados pelo ocorrido em Santa Maria neste final de semana. De fato, foi uma catástrofe de grande proporções e que como todos devem ter visto em noticiários, totalmente evitável.

Diz-se em medicina de urgência, que 90% dos acidentes são evitáveis. E, quando ocorrem, normalmente existe uma sequência de fatos que levam ao desfecho trágico.
Porém, como evitar ou tratar eventuais acidentes que podem acontecer em nossa casa?

Em se tratando de queimaduras, sem dúvida as crianças são as mais afetadas, e a cozinha é o local onde mais ocorrem acidentes deste tipo. Os acidentes com líquido fervendo ou por superfícies aquecidas lideram as estatísticas.

Os acidentes com líquidos se dão quando estes estão em panelas no fogão com o cabo virado para fora. A criança, então, puxa o cabo da panela e o líquido derrama sobre ela. Este tipo de queimadura é bem grave pois como o agente causador é líquido, ele escorre pelo corpo aumentando a área queimada.

No caso de superfícies super aquecidas (grill elétrico, tampa de forno, ferro de passar), a queimadura é localizada no local onde houve contato com o agente causador, sendo na maioria das vezes de menor extenção.

Lembro de um caso que atendi onde um bebê de pouco mais de 1 ano, aprendendo a andar, se apoiou na tampa do forno da cozinha que estava muito quente. Ele teve queimaduras de segundo grau em uma das mãozinhas.

Mas então o que fazer no caso de uma queimadura? Já vi de tudo. Desde passarem pasta de dente na ferida, até pó de café. Trágico.
O ideal é sempre resfriar o local da queimadura. com água fria. E vou explicar o porquê.

O trauma térmico causa um aumento da permeabilidade vascular, ou seja, são ativadas uma série de substâncias que provocam dano na parede interna dos capilares sanguíneos, o que leva a um extravasamento de líquido através dos poros. Esse líquido é rico em proteínas e eletrólitos (sódio, potássio e etc), que são importantes para o funcionamento celular. Daí a formação do edema (inchaço) e das bolhas nas queimaduras, o simples resfriamento da área queimada retarda ou inibe a instalação deste processo.

Com isso, a pessoa já estará colaborando imensamente para o sucesso do tratamento futuro.
No caso de queimadura com chamas, é importante combater as labaredas abafando-as com tapetes ou água (mangueira, extintor de incêndio) e livrar o mais rápidamente possível a vítima das roupas queimadas, pois essas podem "se fundir" com a a pele queimada, principalmente tecidos sintéticos como o nylon. E depois resfriar a pele afetada com água fria.

As queimaduras elétricas são de longe as mais perigosas. E são voltagem dependentes. A rede elétrica doméstica (110, 220V) é considerada de baixa voltagem, mas em crianças, normalmente essa queimadura se dá quando os pequenos mordem os fios que estão ligados a tomadas, aí a queimadura além de ser elétrica se dá na boca o que torna o tratamento muito mais complicado. Portanto, cuidado com fios expostos quem tem crianças em casa. O tratamento inicial é o mesmo, resfriamento da lesão, porém a queimadura elétrica tende a se estender e costumamos dizer que o que vemos é só a "ponta do iceberg", pois estruturas mais profundas podem estar comprometidas mesmo que não possamos visualizar.

As queimaduras químicas também são comuns em ambiente doméstico. E o mecanismo da lesão se dá pela ação direta do agente ou por reação química do agente com o suor, por exemplo, que pode gerar calor. Já vi queimadura de segundo grau com aqueles adesivos para combater dores musculares.
Normalmente os agentes envolvidos são ácidos (usados para limpar pisos de pedra, por exemplo), álcalis (limpadores de forno, amônia) ou compostos orgânicos como os fenóis usados em desinfetantes. O tratamento inicial consiste em retirar todas as vestes da vítima e irrigar com água copiosamente para retirar o agente causador. No caso de queimadura com agentes químicos em pó, estes devem ser removidos com um pano antes da irrigação pelo risco da geração de reação exotérmica aumentar o danos. Nunca usar agentes neutralizadores. Só água.

Como vocês viram tratar um paciente queimado na fase inicial é muito simples. Só é preciso resfriar a área com água. E SEMPRE procurar auxílio especializado em uma grande emergência.

A questão das inalações de fumaça tóxica ou ar super aquecido realmente é um grande problema, pois faz a vítima perder a consciência muito rápido. Uma dica é: Se você estiver em um ambiente em chamas, procure rastejar, pois o ar quente tende a se acumular na parte de cima do ambiente.
Sinais como fuligem no nariz e boca, pêlos nasais queimados, tosse com escarro escuro pode sugerir intoxicação por fumaça e uma broncoscopia deve ser providenciada imediatamente. Outra dica doméstica: Sempre deixo um extintor de incêndio, aqueles para carros que vendem em postos de gasolina, na minha cozinha.

De fato os acidentes com queimados é uma parte da cirurgia plástica onde lidamos com a vida e a morte. Os cuidados com a manutenção da vida devem ser prioritários e depois de estabilizados, os pacientes passam a receber os cuidados específicos de cirurgia (que normalmente são muitas!), mas a mensagem que eu queria deixar hoje é que a prevenção ainda é a melhor forma de evitarmos sofrimentos e perdas irreparáveis.

Um grande abraço e rezemos juntos pelas famílias da tragédia de Santa Maria.
Luiz Felipe

quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

Plástica na alma


Hoje vivemos um momento muito importante na cirurgia plástica. Porém não considero que seja um bom momento. Vejo exageros e apelos midiáticos levando a banalização de uma especialidade tão importante para a medicina.

A cirurgia plástica é antiquíssima. Existem relatos de reconstruções nasais que datam de antes de cristo. Na Índia as mulheres adúlteras eram punidas com o extirpação do nariz e com isso vários médicos da época desenvolveram técnicas para a reconstrução deste. Uma delas, descrita por Sushuta, existe até hoje e é chamado de "retalho indiano".

Como especialidade, a cirurgia plástica começou a tomar forma após a primeira grande guerra. Esse conflito foi caracterizado por combates em trincheiras, onde apenas as mãos e a cabeça dos soldados ficavam de fora. As lesões em face e membros superiores eram muito frequentes o que levou os cirurgiões militares a pensarem em formas de reconstrução destas partes.

No Brasil, o grande "boom" da especialidade se deu com a tragédia do incêndio do circo em Niterói na década de 60, onde os primeiros cirurgiões plásticos que se formavam pelas mãos do professor Pitanguy, foram de fundamental importância para o auxílio às vítimas.

Portanto, a especialidade sempre teve um cunho social e de reabilitação muito forte. É o que nós procuramos em cirurgia estética. Saber identificar problemas psíquicos, alterações comportamentais ou mesmo expectativas irreais dos pacientes é uma arte.

Querer mexer em alguma parte do corpo que esteja incomodando é legítimo e deve ser estimulado, contanto que seja feito de forma a ajudar e não resolver os problemas.
Um longo papo com os pacientes é extremamente necessário, e já tive que recusar muita cirurgia por achar que aquela pessoa não tinha condições psicológicas de se submeter a uma intervenção.

Em 2012 fui chamado para participar de um programa na TV Alerj onde o tema era justamente este. A cirurgia plástica e sua interface com o psicológico. Espero que gostem.
Abraços
Luiz Felipe
 

quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

Voltei! Saudades!


Podem brigar comigo, eu sumi.
Descaradamente!
Gente, fim de ano dá uma preguiça! E eu resolvi aproveitar o início de 2013 para ficar com o gordinho. Me diverti muito!
Eu tive tempo de escrever, não vou negar. Mas queria não pensar em nada, sabem como é? Morri de saudades de vocês, lógico. E me senti culpada por este "abandono". Mas estou de volta, e muito emocionada com o post do meu irmão (#coruja).
Engraçado ele ter mencionado este episódio da Lara. Hoje mesmo eu me lembrei disso. Algumas leitoras pediram uma foto da Lara e do Felipe, pois desde que o Gabriel nasceu, eu só tenho postado fotos dele. Verdade. Que vergonha!

Então, em homenagem ao post sobre esportes do Luiz Felipe, vou mostrar uma foto da Lara no cavalo. Preparem o coração porque a fofurice é intensa:


Não pensem que me esqueci do Felipe, que está mais engraçado do que nunca. As coisas que ele fala deveriam ser gravadas, que menino esperto! Torço muito para que o Gabriel se torne um menino interessante como ele.

Agora que retomamos consultório, hospital e aulas, vamos voltar com tudo no blog! Da-lhe 2013!

quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

Esportes e Cirurgia Plástica

 Sempre procurei estimular em meus pacientes a prática esportiva, e não estou falando de ir para a academia, que vamos combinar é bem chatinho, mas estou falando de realmente praticar um esporte.

Muitas pessoas que me procuram para opera,r estão com a auto-estima lá no dedão do pé, e realmente a cirurgia plástica pode dar uma mãozinha mas depois...como é que fica?

Recentemente operei uma paciente de lipoaspiração. Excelente indicação, mas conversando com ela e o marido percebi que os hábitos nutricionais e de atividade física do casal não eram nada saudáveis. Gastei um bom tempo explicando que não adiantava nada operar se uma nova rotina de alimentação e exercícios não fosse instituída. Para o casal.

Não adianta um querer e o outro na primeira compra de mês, encher o  carrinho com biscoito recheado e chocolates não é mesmo? Acho que eles entenderam o recado, pois os reencontrei 1 ano depois e quanta diferença! A minha paciente mantendo o resultado e o marido com 15 Kg a menos. Mudaram radicalmente a dieta da casa e estão jogando tênis 2 X por semana. Fantástico!!

Organizar a agenda de fato é uma arte, mas se colocamos a atividade física como prioridade, certamente vamos encontrar tempo. Eu fiz isso. Pratico judô 1X por semana, terça-feira de 19 às 21h.
Terça, eu não faço consultório. Opero de manhã e à tarde ajudo os residentes.
 Levo meu kimono para o hospital. Quando termina a cirurgia da tarde vou direto para o treino. Eles até brincam comigo:
-"Dr.Luiz vou operar rapidinho porque eu sei que o sr. tem judô hoje" rsrsrs
E quando dá dou uma corridinha de 30min. na praia de Icaraí

Além disso, o esporte nos dá lições preciosas de coragem.
A Lara (minha filha) pratica hipismo desde os 4 anos. Agora ela está com 6, e saltando 40 cm. Já caiu do cavalo, se ralou toda, mas voltou a montar. Uma vez, o professor sugeriu um exercício que consistia em subir um barranco com o cavalo e descer, ela devia ter feito 5 anos feitos recentemente, e não tinha muito controle sobre o cavalo. 
O barranco, para piorar, era cercado de vegeteção, o que fazia o animal querer comer todo aquele capim em volta. Claro que ela ficou toda enrolada, e o professor gritando, incentivando, até que lá pelas tantas, com algumas lágrimas nos olhos, ela conseguiu fazer o exercício. Quando ela se acalmou, o professor chegou perto e falou:
-"Viu, Lara, como você consegue? Sempre que você tiver alguma dificuldade na vida, na escola e etc, lembre-se desse dia em que você venceu o barranco".

Ok. Passaram-se uns 2 meses, e ela teve aquelas febres inexplicáveis de criança em uma segunda-feira e não foi à aula. No dia seguinte ela melhorou, mas ainda estava com 37, febril, mas não queria faltar a aula de novo. Eu falei:
-"Filha se você não estiver se sentindo bem, não precisar ir para a escola."
Sabem o que ela me respondeu?
-"Papai eu subi e desci o barranco, essa febre não é nada".

Agora me digam com muita sinceridade. O que mais pode ensinar uma criança de 5 anos a ter atitudes como essa, além do esporte?

A cirurgia plástica opera milagres, sem dúvida, mas manter os milagres é responsabilidade de cada um. Iniciar uma prática esportiva "depois de velho" pode parecer inviável, e certamente vai ser difícil, vão haver alguns "barrancos", mas os resultados são muito compensadores.
Mario Andretti, um dos maiores pilotos de todos os tempos, uma vez falou:
"O desejo é a chave para a motivação, mas é a determinação e compromisso de uma busca incessante de seu objetivo, um comprometimento com a excelência, que lhe permitirá alcançar o sucesso que você procura"
No esporte e na vida.

Um grande abraço

Luiz Felipe

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minhapele@ig.com.br, Rio de Janeiro, Brazil
Uma médica que ama dermatologia, medicina estética, e principalmente, ADORA o que faz. Um cirurgião plástico apaixonado pela profissão.

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